terça-feira, 1 de julho de 2008

O enterro

Em seus últimos instantes, juntas, as três irmãs tentam se livrar de suas chagas. Se acariciam, tocando ferida por ferida. Duas não resistem aos carinhos e a última, moribunda, prepara o enterro fraterno.
O coveiro mede os palmos dos corpos, licenciando as almas das mortas quando as toca. A última irmã desfalece e ele anuncia: “Tem quem morre e esquece de cair”. Ele prepara: 3 corpos e 1 cova. Com cuidado, junta para a terra os pés das três irmãs e imagina as vidas daqueles corpos: “uma morreu calada, a outra chora com olhos de quem vive e a terceira é a cantora”. Preparadas, com cheiro de carne de porco, ele sai para buscar a pá.
Do lado da cova rasa, sob a lápide maior daquele cemitério, três falantes espíritos: a noiva de histórias inacabáveis, o capitão sem tripulação e a médica-morta-legista de pacientes vivos.
A noiva relata intimidades das três mortas:
- Elvira, festeira, ia casar-se com um homem que não pisasse no seu pé durante a valsa - vivia a prometer.
- Margarida morreu de aliança no dedo. Guardava todas as cartas do noivo distante.
- Juliana guardava dentro dela uma pedra amarela com uma luz que insistia em escapar pelos olhos.
A médica-morta-legista via, naqueles corpos, cartões-postais de suas viagens vivas: Donzelas-mãos sobre troncos de relva. Rios negros cacheados. Dedos soldados farropilhos de peles amarelas que protegem o ovo tornozelado da rainha.
Ao final das apresentações, a noiva lembrava “Sonhar com piolho é sinal de morte!”.
Sem café, as pessoas no velório reclamam. Olham figuras que chegam. Criticam as roupas das defuntas. Perguntam o coveiro em qual hora devem chorar.


* texto criado à partir da improvisação de Camila, Jacquie, Thais, Bia, Prata, Vand, Tales e Mariana, no fim de junho.

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