Líria, catadora de belezas desprezíveis. Começou bem cedo a cumprir seu destino. Lembro-me bem quando pendurou sua primeira garrafinha amarrada por um barbante na roda traseira da bicicleta. Saiu pela cidade a mostrar a primeira música que havia criado. O barulho das rodas, o som da garrafa que tocava o chão, o chiar da velha bicicleta, o ruído que o vento fazia naquilo tudo e toda a emoção jorrando de Líria- também isto fazia muito barulho- causava na pequena menina a imensa sensação de que estava realmente viva. Desde então, naquela pequena cidade onde nasceu, muitos olhares tortos e muitos narizes torcidos se ergueram para a catadora. A sua bicicleta tornou-se pouco a pouco um verdadeiro gabinete de curiosidades. Restinhos de tudo que as pessoas à sua volta se desfaziam com tanta facilidade. Quem a olha assim, em alguma esquina qualquer, não imagina que o seu silêncio é poliglota. Moça de origem nobre, desprezou o valorizado e valorizou o desprezado.
Muita loucura é sabedoria divina
Para um olho inteligente
A nossa doce menina é para o olho comum
Apenas uma indigente
E o que importa?
Forte é o coração que suporta
O estalido de um passo na porta.
Há 17 anos
Um comentário:
belo...valeu Bia!
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