quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O encontro em Lochac

Jornalista em expedição ao sul da ilha de Lochac, entra em caverna e encontra adormecida, aquela mulher. Impressionada, analisa o corpo e relata em seus blocos cada detalhe:

JN: Pés embriagados de sujeira. Mãos empoeiradas de histórias. Corpo mapeado por um tempo que não mais se vê. Nesta caverna, “um lugar eco e oco[1]”, ela dorme como embriões que esperam o tempo do parto.

Ela acorda. Produz sons primitivos. Desenha nas paredes com pedras de cor. Jornalista tenta comunicação:

JN: (para ela) Oi! Eu sou jornalista e queria te entrevistar, por favor! (sozinha) Não. Português, não! (para ela) Pardon. Je suis une jornaliste. Je voudrai parler avec vous, c’est possible? (sozinha). Francês tão pouco. Meu inglês é péssimo, mas... (para ela). Excuse me! I am jornalist. I want talk to you. Please? (sozinha). Nada. Libras? Quem sabe? (faz sinais). Não! Código Morse? (bate seqüências no chão e ela reage).

Ela responde as batidas. Começa a desenhar em seu corpo.

JN: (observando e anotando) Ela usa seu corpo como um verdadeiro mapa espiritual. É como se representasse a terra onde vive com símbolos pintados por todo o corpo. Um mapa-corpo que projeta em seu suporte primeiro sua história de vida, como se seu corpo passasse a personificar uma passagem sagrada. O corpo humano havia se tornado, para essa mulher, um refúgio de valores sobre a acima de sues órgãos?[2]

Ela aproxima-se da jornalista e, aos poucos, inicia o ritual de escrita no corpo da visitante que se permite experimentar o rito sagrado.

JN: (anotando) Ela me toca como se houvesse intimidade entre pessoas no tempo em que vivemos. Risca meu corpo com símbolos que, mesmo não entendendo, significam-me. Desenha e apaga, como se eu mesma fosse um palimpsesto: um pergaminho onde o mundo inteiro podia ser transcrito e depois removido seguindo um ritual.

Dentro do ritual, ela começa a manifestar-se em sons guturais. A estrangeira apropria-se dos ruídos, abandona suas anotações e canta. Juntas, cantando, o ritual é eternizado ao fim da cena.

[1] Citação do texto da Jacqiee.
[2] Adaptação de trechos do Fra Mauro da pág. 135/6

Nenhum comentário: