segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Mulher (primitiva) Oráculo

por Jacqueline Calazans

Mulher Primitiva – ‘Oráculo’

“Qual o lado da noite que umedece primeiro”
Do meu destino eu mesmo desidero. (...)Quando cheguei neste lugar – Aqui só dava maxixo e capivara.
Falo sem desagero. Desculpe a delicadeza. Meu olho tem aguamentos.
‘Insetos cegam meu sol.
Há um azul em abuso de beleza.(...)
Sou puxado por ventos e palavras
(Palestrar com formigas é lindeiro de insânia?)’
‘Eu sei das iluminações do ovo.
Não tremulam por mim os estandartes
Não organizo rutilâncias(...)
Maior que o infinito é o incolor.
(...)Preciso do desperdício das palavras para conter-me.
O meu vazio é cheio de inerências.’
‘Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qulaquer coisa judiada de ventos.’
‘(...) essa vegetação de ventos me inclementa.
(propendo para estúrdio?)
O escuro enfraquece meu olho.
Ó solidão, opulência da alma!
No ermo o silêncio encorpa-se.
A noite me diminui.
(..) confesso meus bestamentos
tenho vanglória de niquices
(dou necedade às palavras?)’
‘me parece que a hora esta mais cega
um fim de mar colore os horizontes
cheiroso som de asas vem do sul
(sou pessoa aprovada para nadas?)
(...) Estou só e oca.’
‘Ando muito completa de vazios
meu órgão de morrer me predomina
estou sem eternidades
não posso mais saber quando amanheço ontem
esta rengo de mim o amanhecer
ouço o tamanho obliquo de uma folha(...)
essas coisas me mudam para cisco’
(Baseado em Manoel de Barros)

Sua casa é nos confins da fronteira morta. O limite tênue entre os dois mundos. Um lugar eco e ôco, com cheiro de mato e carvão queimando.
Onde o tempo pára e paira no ar, como num vácuo, ou numa ausência de gravidade.
Ela já foi moradora da vila, em outros tempos que não de agora, tempos de tempos atrás... até que um acontecimento a transformou e levou a morar nesta gruta.

Ela é feiticeira, alquimista, advinha e pintora de mapas-corpos.
Em sua gruta, tem desenhado nas paredes a história de todos os seres dos dois mundos. Histórias que as sombras lhe revelam e que traçam-se e se trançam nos corpos onde ela pinta o mapa dos dias vindouros e passados de cada ser, deste ou daquele mundo.

“ela cria e pinta os sonhos de Mana, que acontecem conforme são pintados. E “ela” também cria e manda os desenhos para a mente e as mãos de Mauro, provocando sua reflexão sobre a vida e o mundo desconhecido. Os seres do mapa também são criação sua. Foram criados para incitar os moradores da vila nas questões que os impulsionam.

Sua linguagem é mítica e só se revela a ouvidos abertos ao imaginário. Daí a dificuldade de muitos que vão até ela em busca de orientação ou da pintura de seu mapa-corpo, não entenderem suas mensagens.

Salto sempre que atravessa as cercas da vila para o outro mundo, passa pela ‘zona morta’ e conversa com “ela”, esperando uma orientação para suas novas experiências.“ela” tenta orientá-lo quanto a função dos seres que irão escapar dos mapas, mas ele compreende tarde demais, e quando volta à vila os seres já estão lá.

[Texto criado a pedido de Letícia para ser inserido no 1ºCanovaccio]

Nenhum comentário: