# Cena I: No cemitério, dois coveiros #
Vazio. Luz de serviço. Dois estão sentados esperando alguma coisa. Virão da platéia ou da técnica? Ação em aberto. O ranzinza e o filósofo. Duas atrizes.
Ranzinza - (direciona-se para o Filósofo) Desta vez, você vai começar... Vai começar ou não vai? (pausa, espera reação do público) Tá olhando o quê? Acho que tem gente me olhando, eu sei...
Filosófo - (direciona-se para o Ranzinza) Que horas são? Esse negócio não chegar começar não? (Ranzinza faz PSiuuu!, pedindo que fale mais baixo) Não posso falar alto não? (Fala mais alto) Esse negócio não vai começar não? Alguém vai fazer alguma coisa?
Filósofo – Eu?
Ranzinza – Você sim? Vai fazer o quê?
Filósofo – (decisivo) Eu vou embora.
Ranzinza – Vai embora? Mas ainda não começou. Não vai não.
Filósofo – Vou sim. Eu não quero que nada comece. (para o Ranzinza) E quem vai me impedir?
Olham para o público esperando alguma reação, ou seja, alguém fazer alguma coisa. Percebem o público.
Ranzinza – Se ninguém faz nada, eu não vou deixar, quer dizer, vou fazer alguma coisa.
Filósofo – E eu te conheço?
Ranzinza – Não importa, eu te pego.
Vão avançando para o centro a cena.
Filósofo – Pega nada, (pausa irônica) mudando o fio da conversa, como você chama?
Ranzinza – Não importa. Eu vou aí e te pego.
Filósofo – Pega nada. (pausa irônica). Eu tô indo embora.
Ranzinza – Eu te pego e você não vai embora, não.
Filósofo – Pega nem resfriado e eu já to indo. Quer dizer, embora.
As duas estão chegando no foco da cena e indo uma ao encontro da outra.
Ranzinza – Vai pro meio.
Filósofo – Pára de me dar ordem.
Ranzinza – Então você começa.
Filósofo – Eu não vou começar nada. (pausa constrangedora) Faz alguma coisa.
Ranzinza – (pausa constrangedora) Eu não sei fazer nada. Começa você.
Filósofo – Canta...
Ranzinza – Eu não sei cantar. Canta você.
Filósofo – Eu não posso cantar eu tenho calo na voz.
Ranzinza – então, cala. Alguém tem que fazer alguma coisa para alguma coisa começar a acontecer.
Filósofo – Fazer o quê? Eu não sei fazer nada. E quando alguma coisa vai começar?
Ranzinza – não sabe fazer nada? (lembra do fio da conversa) Espera! Alguma coisa já está acontecendo.
Filósofo – Também estou percebendo. (pausa pensativa) Já sei, canta uma música pra eles.
Ranzinza – Eu não posso cantar.
Filósofo – Por que?
Ranzinza – Eu sou rouca.
Ranzinza – Então, “fica na touca”. Tá todo mundo olhando, alguma não só está acontecendo como já começou há algum tempo. Então, faz alguma coisa.
Filósofo – Pode ser da infância?
Ranzinza – Pode.
As duas se viram para o público.
Filósofo – (respira profundamente, pausa e não canta) Eu não consigo, canta você.
Ranzinza – (respira profundamente, pausa e também não consegue) Eu não me lembro.
Filósofo – Vamos cantar junto?
Ranzinza – “Tananananã...”, pode ser?
Filósofo – Pode ser, vai não enrola.
Ranzinza – (Respiram juntas e não sai nada).
Filósofo – Então eu vou rezar.
Ranzinza – Rezar o quê?
Filósofo – Uma ladainha.
Ranzinza – Tão tá.
Filósofo – Amém.
Ranzinza – Amém.
Ranzinza – Como é que se chama?
Filósofo – O quê?
Ranzinza – Aquele colarzinho?
Filósofo – Que colarzinho?
Ranzinza – O das contas, bolinhas.
Filósofo – Pequenas e grandes?
Ranzinza – O do bonequinho pendurado.
Filósofo – O cabeludo?
Ranzinza – Isso (silêncio).
Filósofo – Esqueci o nome.
Filósofo – Eu também me esqueci. E o buraco, você se lembra?
Ranzinza – O buraco com bola grande e pequena?
Filósofo – O meu não tinha bola nenhuma.
Ranzinza – O seu buraco era muito vazio.
Filósofo – O seu é que era cheio demais.
Ranzinza – O meu buraco pelo menos era grande.
(Silêncio).
Ranzinza – Lembra da mão?
Filósofo – Entrando e saindo?
Ranzinza – Cavando e botando?
Filósofo – É.
Ranzinza – É.
Filósofo – Então, ‘cabo.
Ranzinza – ‘Cabo.
Filósofo – Cadê a cortina?
Ranzinza – Pode rir!
Filósofo – Pode bater palma!
Ranzinza – Apaga a luz!
Filósofo e Ranzinza – Tchau.
Filósofo – (para o público) Quer tirar foto?
Ranzinza – A gente tira. (se aproximam)
Filósofo – Agora eu vou embora.
Ranzinza – Onde você pensa que vai?
Filósofo – Pra minha casa.
Ranzinza – Mas o serviço mal começou, rapaz, e funcionário sai é por aqui.
Filósofo – Ah, vai, vai, vai... vai tomar vacina!
Ranzinza – ‘Pera, aí, tem um sujeito tirando foto da gente ali também.
Filósofo – ‘Pera, aí, tem realmente um sujeito tirando foto da gente ali em cima.
Ranzinza – ‘Pera, aí, foi isso que eu disse.
Filósofo – ‘Pera, aí, mas faltou o “realmente” e “em cima”, que faz uma diferença considerável. Mudando o fio da conversa, eu vou embora.
Ranzinza – Vai embora? Mas ainda não acabou. Não vai não.
Filósofo – cabo, sim. E quem vai me impedir?
Olham para o público esperando alguma reação, ou seja, alguém fazer alguma coisa.
Ranzinza – Se ninguém faz nada, eu não vou deixar, quer dizer, vou fazer alguma coisa.
Filosófo – Cansei.
Ranzinza – Eu também.
Esvaziam a ações e saem resmungando um para cada lado.
Há 17 anos
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