terça-feira, 27 de maio de 2008

Quem é o diabo?

olhar sobre a aula da Helena (voz)
por Mariana Arruda

Num canto de rua, num domingo depois da missa, alcoviteiras entre silêncios e olhares indagam a presença do diabo.
O instante é construído após as sacralidades num outro canto do templo daquela cidadela.
Em fila circulante, lado-a-lado, uma após a outra, elas caminharam até os fundilhos da igreja. Caminho baixo que pede por silêncio, leveza e densidade para a travessia. Na chegada, principiam um palavrear contido, de pouco som e olhar pontual. Uma ou duas palavras (e de pouco fonemas), mas com significantes acusadores e desconfiados. As desconfianças passam uma a uma pela fileira de alcoviteiras, como uma brincadeira de criança.
Ela, a mais velha, dos cabelos avermelhados pelo tempo, do olhar que mais instaura as acusações mútuas, além de guiar as outras para a contida discussão, finda o instante de calmaria após o maior acusamento de todos: “Você é o diabo!”.
Em polvorosa, todas começam a se acusar, misturando angústias, medo e um completo desespero por serem alvo de tal titulação.
Instaura-se uma feira de acusações demoníacas. Umas fogem, outras acusam. Quem ali seria, de fato, o diabo?

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