O que for da profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino
Bŗhad Ắraņyaka Upanishad, IV: 4,5.
A Cigana de Karakoram (Kantara)
No último dia do conflito entre a Índia e o Paquistão pela Caxemira, nasceu, das águas generosas do Jelum, aquela que estava destinada a sempre dar o próximo passo, o ímpar, aquele que faz toda a diferença numa vida medíocre. Sua mãe sonhou durante o parto e, juntamente com a bíli, vomitou o sonho com palavras estranhas. Quando por fim tudo acabou, a vida de Kantara deu seu primeiro grito.
O nome, escolhido pelo Pai, significa “ portas do deserto”, uma homenagem às famosas gargantas a oeste de Aures que dão acesso a um belo oásis. Talvez, por demasiada realidade, a ironia se fez : suspirou a mãe, ao sentir na morte um alívio. Ao pai sobrou a sede, uma secura que a cada dia se faria em peles e ossos, o deserto da dor. Para Kantara sobrou a busca, o completar um nome que trazia promessas de frescor.
Entre as saias que sua mãe usava e a música que os homens tocavam, fez-se uma mulher linda - e como sempre, incompleta. No seu caso, costumes, dança, sorte, tudo era familiar, incógnito e real como ela própria. Seus sonhos eram concretos, ainda que feitos de uma imagem impossível que voltava sempre igual, como enigma que exige ser descoberto: um sorriso de mãe: firme, doce e indomável.
Depois de lavar a roupa, moça de 21 anos, fez trança nos cabelos um pouco revoltados com o vento e com sua alma. Iria se juntar à família para partir rumo ao sul. O sol já tinha nascido fazia tempo e quis sentar-se para descansar. Pode ver sua sombra, no tamanho real, lhe observando da pedra. Kantara ficou imóvel para não se assustar consigo mesma. Como se pudesse ser frágil, ou demasiado animal, iniciou uma conversa no silêncio com aquela sombra. Assim que a lua nova brilhou nos seus olhos, já não havia música, nem amigos, nem pai, mas um grande corte, uma barreira erguida no seu espírito, uma falta que sem notar, já a fazia andar rumo ao Norte.
Durante meses a Natureza foi sua companheira. Animais, plantas, todos os elementos. Kantara tinha raízes fortes amaciadas pela vivência de um mundo que hoje poucos podem [e querem] conhecer mas que resiste pelo simples fenômeno de fazer parte da natureza, de conter todos os elementos e por estar acima da ignorância..
Após ou quase muito tempo depois de viver na floresta dias felizes, harmônicos, meio parecendo de mentira, mas sendo de verdade, aconteceu uma batalha nesta história. Sangue o bastante [se é que existe suficiência neste absurdo de cegueira de amor]. O que houve mais eu não sei. Kantara ainda não me contou e, não sei se não quer contar ou se sou eu quem não quer, por hora, escutar. Talvez nenhum dos dois. Ou todos já sentimos o bastante. Ah, mas compreendo que foi uma luta com outra mulher. Mulher nem com maíscula nem com minúscula: normal, ferida, cruel e bela. Feia também, porque fingia que sabia se gostar.
Com esse lapso saltamos para o agora. Quando possível, daremos uma pernada para trás e resolveremos este vazio – sem garantias de que o vazio deixe de ser o sempre foi.
Bem, Kantara acredita estar próxima do Norte e que este a levará ao início do seu sonho(doce prisão).
...
Ø
...
Ali mesmo, no escuro, ar seco, ela lança seu espírito rumo aos grandes rochedos. O corpo ansioso vislumbra a projeção deste futuro que cada vez fica mais perto, que quase consegue tremer por sua espinha. Sua mente o alcança como uma flecha e,do nada, pára. Do silêncio do deserto toca o “Não”. E seu corpo, que já foi gordo, magro, flexível, rígido, agora, obedece: fica na areia que já também queria se ir com o vento. Kantara, espírito lá, corpo aqui, para onde poderia ir? Como se mover se já havia receio, se já irrigava o medo que a solidão plantara?
Tudo o que queria nesse momento, nem que este fosse mais curto que todos os outros, nem que se acabasse triste, nem que depois perdesse tudo o que trouxera desde os ancestrais dos seus ancestrais, era um amigo que fosse olho no olho.Quando o encontrou riu, primeiro de nervoso, de alegria, de medo de ser mentira ou, talvez pior, de ser verdade – porque neste caso então já sabia que o fim ia fazer doer. Dor já provada, um pequeno gole que bastou para ter razões em viver só. Mas não conseguia. Estava viva! E muito melhor que razões, é se viver.
Riu, depois, da curiosidade dele, que queria saber como é que ela era quando chorava. “Eu fico séria e deixo as lágrimas escorrerem dos meus olhos, igual a todo mundo”. Agora os dois riam do não convencimento da resposta. Mundos tão diferentes e ainda assim ele estava ali, tão perto que mal chegando e já fazia saudade. A partida, que sempre acontece, será então um dia tão ... cheio! Haverá muita angústia, muitas lembranças lutando para não serem o que são: um passado que só se pode ver e não pegar, como um doce na vitrine em tempos de pouco dinheiro. Kantara sentia tanto medo de perder esse Encontro, estava tão apegada a ele que agora, a qualquer momento longe de seu amigo já se sentia só.
E sabia que isto não era bom. Tentou retomar seu rumo e, numa surpresa de botar pânico, achou tudo sem sentido: o antes e o depois. - Eu vou ficar aqui parada, na estrada. Pode encostar – Dizia ela para Ninguém Mais, que então passava ali assim como uma uva passa.
O destino se mostrava cru, puxando o tapete do tempo numa maravilhosa demonstração daquilo que ele não parecia, mas era: Mutável. Kantara o atravessa como uma katana guiada pelas mãos de um samurai: Precisa.
^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^Fim????~~~~~~~TCS^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^Itaipuaçu e,Belo Horizonte 2007-2008.
O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino
Bŗhad Ắraņyaka Upanishad, IV: 4,5.
A Cigana de Karakoram (Kantara)
No último dia do conflito entre a Índia e o Paquistão pela Caxemira, nasceu, das águas generosas do Jelum, aquela que estava destinada a sempre dar o próximo passo, o ímpar, aquele que faz toda a diferença numa vida medíocre. Sua mãe sonhou durante o parto e, juntamente com a bíli, vomitou o sonho com palavras estranhas. Quando por fim tudo acabou, a vida de Kantara deu seu primeiro grito.
O nome, escolhido pelo Pai, significa “ portas do deserto”, uma homenagem às famosas gargantas a oeste de Aures que dão acesso a um belo oásis. Talvez, por demasiada realidade, a ironia se fez : suspirou a mãe, ao sentir na morte um alívio. Ao pai sobrou a sede, uma secura que a cada dia se faria em peles e ossos, o deserto da dor. Para Kantara sobrou a busca, o completar um nome que trazia promessas de frescor.
Entre as saias que sua mãe usava e a música que os homens tocavam, fez-se uma mulher linda - e como sempre, incompleta. No seu caso, costumes, dança, sorte, tudo era familiar, incógnito e real como ela própria. Seus sonhos eram concretos, ainda que feitos de uma imagem impossível que voltava sempre igual, como enigma que exige ser descoberto: um sorriso de mãe: firme, doce e indomável.
Depois de lavar a roupa, moça de 21 anos, fez trança nos cabelos um pouco revoltados com o vento e com sua alma. Iria se juntar à família para partir rumo ao sul. O sol já tinha nascido fazia tempo e quis sentar-se para descansar. Pode ver sua sombra, no tamanho real, lhe observando da pedra. Kantara ficou imóvel para não se assustar consigo mesma. Como se pudesse ser frágil, ou demasiado animal, iniciou uma conversa no silêncio com aquela sombra. Assim que a lua nova brilhou nos seus olhos, já não havia música, nem amigos, nem pai, mas um grande corte, uma barreira erguida no seu espírito, uma falta que sem notar, já a fazia andar rumo ao Norte.
Durante meses a Natureza foi sua companheira. Animais, plantas, todos os elementos. Kantara tinha raízes fortes amaciadas pela vivência de um mundo que hoje poucos podem [e querem] conhecer mas que resiste pelo simples fenômeno de fazer parte da natureza, de conter todos os elementos e por estar acima da ignorância..
Após ou quase muito tempo depois de viver na floresta dias felizes, harmônicos, meio parecendo de mentira, mas sendo de verdade, aconteceu uma batalha nesta história. Sangue o bastante [se é que existe suficiência neste absurdo de cegueira de amor]. O que houve mais eu não sei. Kantara ainda não me contou e, não sei se não quer contar ou se sou eu quem não quer, por hora, escutar. Talvez nenhum dos dois. Ou todos já sentimos o bastante. Ah, mas compreendo que foi uma luta com outra mulher. Mulher nem com maíscula nem com minúscula: normal, ferida, cruel e bela. Feia também, porque fingia que sabia se gostar.
Com esse lapso saltamos para o agora. Quando possível, daremos uma pernada para trás e resolveremos este vazio – sem garantias de que o vazio deixe de ser o sempre foi.
Bem, Kantara acredita estar próxima do Norte e que este a levará ao início do seu sonho(doce prisão).
...
Ø
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Ali mesmo, no escuro, ar seco, ela lança seu espírito rumo aos grandes rochedos. O corpo ansioso vislumbra a projeção deste futuro que cada vez fica mais perto, que quase consegue tremer por sua espinha. Sua mente o alcança como uma flecha e,do nada, pára. Do silêncio do deserto toca o “Não”. E seu corpo, que já foi gordo, magro, flexível, rígido, agora, obedece: fica na areia que já também queria se ir com o vento. Kantara, espírito lá, corpo aqui, para onde poderia ir? Como se mover se já havia receio, se já irrigava o medo que a solidão plantara?
Tudo o que queria nesse momento, nem que este fosse mais curto que todos os outros, nem que se acabasse triste, nem que depois perdesse tudo o que trouxera desde os ancestrais dos seus ancestrais, era um amigo que fosse olho no olho.Quando o encontrou riu, primeiro de nervoso, de alegria, de medo de ser mentira ou, talvez pior, de ser verdade – porque neste caso então já sabia que o fim ia fazer doer. Dor já provada, um pequeno gole que bastou para ter razões em viver só. Mas não conseguia. Estava viva! E muito melhor que razões, é se viver.
Riu, depois, da curiosidade dele, que queria saber como é que ela era quando chorava. “Eu fico séria e deixo as lágrimas escorrerem dos meus olhos, igual a todo mundo”. Agora os dois riam do não convencimento da resposta. Mundos tão diferentes e ainda assim ele estava ali, tão perto que mal chegando e já fazia saudade. A partida, que sempre acontece, será então um dia tão ... cheio! Haverá muita angústia, muitas lembranças lutando para não serem o que são: um passado que só se pode ver e não pegar, como um doce na vitrine em tempos de pouco dinheiro. Kantara sentia tanto medo de perder esse Encontro, estava tão apegada a ele que agora, a qualquer momento longe de seu amigo já se sentia só.
E sabia que isto não era bom. Tentou retomar seu rumo e, numa surpresa de botar pânico, achou tudo sem sentido: o antes e o depois. - Eu vou ficar aqui parada, na estrada. Pode encostar – Dizia ela para Ninguém Mais, que então passava ali assim como uma uva passa.
O destino se mostrava cru, puxando o tapete do tempo numa maravilhosa demonstração daquilo que ele não parecia, mas era: Mutável. Kantara o atravessa como uma katana guiada pelas mãos de um samurai: Precisa.
^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^Fim????~~~~~~~TCS^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^Itaipuaçu e,Belo Horizonte 2007-2008.
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